Jamile e seu filho (Reprodução/ Facebook)

*Cinthya Oliveira

O desabafo de Jamille Edaes no Facebook sobre uma tentativa de sequestro, seguida por um caso de racismo, foi compartilhado mais de 117 mil vezes na rede social desde a última segunda-feira (26) e se mostrou representativo de um problema vivenciado por muitas famílias construídas a partir de casamentos interraciais. Quando o assunto veio à tona, multiplicaram-se relatos de casos de mães que sofrem preconceito por terem a cor da pele diferente de seus filhos.

Jamille, que é negra e tem uma filha de 1 ano e 5 meses, relatou que, em uma parada no Graal de Perdões, no Sul de Minas, durante uma viagem, uma mulher branca tentou sequestrar a criança. Jamille bradou que era verdadeira mãe, mas, segundo ela, poucas pessoas acreditaram que ela, por ser negra, poderia ser mãe de uma garota tão branquinha.

Para a pesquisadora e ex-curadora do Festival de Arte Negra (FAN) Rosália Diogo, Jamille claramente sofreu racismo quando as pessoas não acreditaram que ela fosse mãe da menina. “A pessoa que abordou a criança usou a questão racial a seu favor. As pessoas saíram em defesa dela e contra a Jamille porque há um entendimento de que a mulher negra não pode ser mãe de uma criança branca”, afirma Rosália. “Muitas vezes, quando a mulher negra é mãe de uma criança branca, muitas pessoas perguntam se ela é babá”, completa.

Para Rosália, o casamento interracial não é tão cotidiano quanto a maioria das pessoas imagina e ainda causa estranhamento. “No passado, houve uma grande miscigenação, mas as mulheres negras eram estupradas. Hoje, em um contexto de relações afetivas e amorosas, o casamento interracial não é preponderante no Brasil”, diz Rosália.

Casamentos interraciais

A professora do Instituto de Comunicação e Artes da UNA Tatiana Carvalho é filha de uma branca com um negro e viu a mãe sofrer preconceito por ter uma cor de pele bem mais clara do que a da filha. Era comum as pessoas perguntarem se Tatiana era adotada.

Tatiana aponta que famílias interraciais costumam sofrer com o julgamento da sociedade, mas acrescenta que mulheres negras tendem a sofrer um preconceito maior. “Quando a mãe é branca e o filho é negro, existe um benefício da dúvida de que tenha havido uma adoção. Mas a maioria das pessoas não acreditam que uma mulher negra possa ser mãe de uma criança branca, pois no imaginário coletivo a negra tem uma posição de cuidadora da criança”, explica.

Tatiana conta que esse imaginário coletivo foi construído historicamente, com origem no Brasil Colônia. “O papel da mulher negra dentro de uma casa era de satisfazer o patrão e servir de ama de leite para as crianças. O papel era de servir, não de uma mulher para se casar e ter filhos”.

Segundo ela, a história de Jamille é muito reveladora de como o racismo está presente no imaginário coletivo, mas as pessoas não percebem. “Poucos se dão conta de que o racismo é uma construção histórica, está presente nas relações sociais e no imaginário coletivo”.

Entenda o caso

No Facebook, Jamille relatou que a filha, Manuela, foi vítima de uma tentativa de sequestro durante uma viagem de ônibus na segunda-feira (26) entre São Paulo e Belo Horizonte. No Graal de Perdões, após ir com a filha até o banheiro, ela viu uma mulher pegar a menina pela mão, mas achou que fosse uma brincadeira. Quando Jamille chamou pela menina, a suposta sequestradora teria gritado que era a verdadeira mãe da criança e apresentado uma certidão de nascimento falsa, possivelmente de outra criança – o documento seria de uma menina chamada Jéssica, de 1 ano e 8 meses.

Jamille conta que teve de mostrar o documento de identidade da filha e fotos da família no Facebook para provar que era a verdadeira mãe da criança. “Corri, chorei, pedi a ajuda e todos falando: ela não é sua filha, ela é branca, ela não se parece com você. Pelo amor de Deus, como assim? Minha filha não é minha filha porque eu sou negra? O pai dela é branco e ela realmente se parece mais com ele que comigo. Me seguraram, quiseram me bater, falaram que eu estava sequestrando uma criança”, escreveu Jamille. Ela afirma ter chamado a polícia, mas o motorista do ônibus em que viajava teria dito que não iria esperar pelos militares para o registro do boletim de ocorrência porque tinha horário a cumprir. Mãe e filha seguiram viagem, enquanto a suposta sequestradora ficou em Perdões.

Ela registrou boletim de ocorrência na Delegacia Regional de Betim no início da tarde desta terça-feira (27). As investigações ficarão a cargo da Delegacia de Lavras, no Sul de Minas. Serão investigados os crimes de subtração de menor de idade, injúria e constrangimento ilegal. A Polícia Civil informou ainda que deve ouvir funcionários da parada do ônibus na tentativa de identificar e localizar a suspeita.

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