Espetáculo que celebra os 40 anos do Grupo Oficcina Multimédia, GOM, e os 35 anos de direção de Ione de Medeiros, fica em cartaz por mais uma semana

Com o sucesso de crítica e público e sessões com ingressos esgotados, o espetáculo Boca de Ouro, do Grupo Oficcina Multimédia, GOM, estende a sua temporada no CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários) e fica em cartaz mais uma semana. A peça entrou em cena no dia 11 de maio e sairia de cartaz na segunda, 28 de maio. Agora, o elenco dirigido por Ione de Medeiros realizará mais uma semana de apresentações, de quinta a domingo, 31 de maio a 03 de junho, às 19h, no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil. O espetáculo celebra os 40 anos do GOM e marca, também, os 35 nos de trabalho de Ione de Medeiros como diretora do GOM.

Com texto de Nelson Rodrigues, o espetáculo conta a história de Boca de Ouro, um personagem suburbano que, traumatizado pela sua origem desconhecida, quer se afirmar como figura mítica. Na busca pelo poder, ele mergulha no submundo do crime e passa a ser conhecido como Drácula de Madureira. O apelido do lendário bicheiro carioca é Boca de Ouro porque ele troca todos os dentes perfeitos por uma dentadura de ouro, sua marca de poder e ascensão.

A tradicional história do Boca de Ouro acontece em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, mas na montagem do GOM, o espetáculo se desenvolve em um outro cenário. “Pensamos em trazê-lo para o interior de uma casa que poderia ser de um mafioso pertencente a qualquer lugar do mundo. Neste ambiente intimista, duas portas se abrem para o interior da casa de D. Guigui, a personagem que conta a história do Boca de Ouro por meio de três versões diferentes. Uma mesa de escritório serve à redação do jornal O Sol e ao consultório do dentista responsável pela transformação que vai conferir o apelido de Boca de Ouro ao personagem. Uma balaustrada localiza a varanda da casa de Leleco e o Celeste. Estes cinco ambientes, compreendendo interior e exterior, convivem em um mesmo espaço”, ressalta Ione de Medeiros, diretora, cenógrafa e figurinista do espetáculo que ensaiou o espetáculo por oito meses com os integrantes do GOM.

Na montagem, os integrantes se dividem em diversos personagens e o Boca de Ouro é duplicado, interpretado por dois atores. Mesmo com a presença de uma atriz, os atores fazem papéis masculinos e femininos. As roupas são escolhidas de acordo com a situação ou com o temperamento dos personagens e artistas pop aparecem como referência no figurino da peça. “Michael Jackson é uma afinidade eletiva presente no figurino e na dança. Michael foi lembrado por sua história como pop star que escolheu ser enterrado em um caixão de ouro, o mesmo sonho do personagem do Nelson Rodrigues”, explica Ione de Medeiros.

Os textos ágeis, diretos, atraentes, com interrogatórios “bate-bola”, e pistas que funcionam como setas, indicando o que irá acontecer, prometem prender a atenção do público. O texto é um desafio para o público já que o estimula a pensar como um detetive que tenta descobrir os fatos verdadeiros e o que irá acontecer a seguir, após cada confronto entre os personagens. “Foi com esta perspectiva que inserimos em alguns momentos da montagem o clima de uma novela policial. Achei interessante também a dramaturgia pouco convencional de Nelson Rodrigues que nesta peça nos apresenta três vezes a mesma história em três versões diferentes, a partir do estado emocional da personagem narradora. Essas controvérsias questionam a própria objetividade dos fatos e põe em cheque o que é falso ou verdadeiro nas possíveis interpretações da realidade”, destaca Ione que reflete: “A verdade é sempre muito misteriosa”.

A diretora do GOM ainda explica como os seus 35 anos de direção contribuíram para ampliar as possibilidades cênicas do GOM, dando prioridade ao texto de Nelson Rodrigues. “Em primeiro lugar a disponibilidade para experimentar novos caminhos, uma característica frequente desde a criação do GOM. Foi também a maturidade que me permitiu ampliar a visão sobre Nelson Rodrigues, ultrapassando os rótulos que lhe foram impostos e os preconceitos que sempre ouvimos dentro e fora do meio artístico. O que me interessou neste grande dramaturgo complexo, inquieto e controverso foi entrar em contato com sua obra e buscar nela aquilo que ultrapassa o tempo da narrativa e a transcendência do particular para o universal”, afirma Ione.

 

A artista ainda destaca as afinidades entre Nelson Rodrigues e Shakespeare, ambos tendo como foco as contradições e complexidades do ser humano com um fator que contribuiu para a escolha de Boca de Ouro. “Acho que a leitura de Shakespeare em nossa última montagem, Macquinária 21 (2016), inspirada em Macbeth, influenciou esta escolha. Porque Nelson tem muito em comum com Shakespeare. Sábato Magaldi fala de Nelson Rodrigues como um jansenista brasileiro, uma vez que seus personagens são vítimas de desejos inconscientes incontroláveis. Nisto, Shakespeare e Nelson Rodrigues se encontram e serão sempre atuais”, conclui Medeiros.

Aliás, Boca de Ouro completa a “trilogia da crueldade” produzidos pelo Grupo Oficcina Multimédia com foco na violência que vem acompanhando a história da humanidade. “Na primeira montagem, ‘Aldebaran’ falávamos do irreal, de monstros e do medo alimentado por guerras e disputa pelo poder; na segunda ‘Macquinária 21’ (2016), o foco era o Governo e a sede de poder que levou o rei a ser morto antes de subir ao poder. Em ‘Boca de Ouro’, o foco é revelar o que o ser humano é capaz de fazer para sua ascensão social. Este é um espetáculo que fala das sombras humanas. Mesmo os bons têm algo sombrio adormecido que é melhor não acordar”, Sob essa perspectiva, o personagem referencial é um marginal  do  subúrbio do Rio de Janeiro, conhecido como o Drácula de Madureira , famoso na redondeza pelos seus crime e benfeitorias. Mas, desta vez, junte-se a tragédia pitadas de humor, uma das características do autor Nelson Rodrigues, abrindo espaço para que as pessoas possam rir de suas próprias fraquezas, conclui a diretora.

O elenco do espetáculo Boca de Ouro é formado por Camila Felix, Gabriel Corrêa, Gustavo Sousa, Henrique Mourão, Jonnatha Horta Fortes e Victor Hugo Barros. Jonnatha Horta Fortes é o assistente de direção, figurino e preparação corporal. Francisco César é o responsável pela trilha sonora e operação de som. Agostinho Paolucci, Lucas Fainblat e Rafael Pimenta são as participações especiais na trilha do espetáculo

Os ingressos custam R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do Centro Cultural Banco do Brasil e no site www.eventim.com.br. A classificação do espetáculo é 14 anos.

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