Educação Física e Autismo, um olhar sobre com Michele Lafraia

Educação Física e Autismo , um olhar sobre com Michele Lafraia
Crédito da imagem: Arquivo pessoal


A necessidade de políticas públicas e de um currículo estruturado

 

Da redação – O interesse pelas intervenções esportivas no autismo cresceu de forma acelerada nos últimos anos. O diagnóstico de TEA atinge cerca de 1 em cada 100 crianças no mundo e, no Brasil, as matrículas de estudantes com autismo na educação básica aumentaram 44,4 % entre 2023 e 2024. Paralelamente, diversas revisões sistemáticas apontam que crianças com TEA apresentam atrasos motores e índices reduzidos de participação em atividades físicas, o que reforça a necessidade de políticas públicas e de um currículo de Educação Física estruturado. Em comemoração ao mês do autismo, convidamos a Michele Lafraia – especialista em Educação Física inclusiva e autora do artigo Intervenções esportivas no Transtorno do Espectro Autista (TEA) publicado pelo Núcleo do Conhecimento, em 2026, para um debate sobre o assunto.

1. Por que o tema das intervenções esportivas no autismo se tornou tão relevante nos últimos anos?

Michele Lafraia: O tema ganhou relevância por três motivos principais. Primeiro, observamos um crescimento expressivo do número de crianças diagnosticadas com TEA e matriculadas na escola. Dados do Censo 2022 mostram que aproximadamente 2,4 milhões de brasileiros – cerca de 1,2 % da população – têm diagnóstico de autismo. Entre 2023 e 2024 houve um aumento de 44,4 % no número de matrículas de alunos com TEA. Esse aumento exige adaptações curriculares e formação docente para garantir a permanência desses estudantes e seu pleno desenvolvimento.

Segundo, a literatura científica mostra que o TEA não se restringe às alterações na comunicação; ele também está associado a déficits motores e à baixa participação em atividades físicas. Esses déficits ampliam o risco de sedentarismo, obesidade e isolamento social. Como professora de Educação Física, vejo que a escola deve assumir um papel estratégico na oferta de intervenções motoras que promovam saúde e inclusão.

E, por fim, existe um acúmulo de evidências de que programas de atividade física estruturada – como atividades aquáticas, mini‑basquetebol, equoterapia, artes marciais e exergames – reduzem déficits motores e favorecem a comunicação social. Por isso, a Educação Física deixou de ser apenas recreação e passou a ser uma política universal de inclusão, com base em planejamento pedagógico e adaptação contínua.

2. Quais são os principais benefícios neuropsicomotores das práticas esportivas estruturadas destacados no seu artigo?

Michele Lafraia: A revisão integrativa que publicamos procurou cruzar dados demográficos com evidências de ensaios clínicos e meta‑análises. Identificamos que, embora crianças com TEA apresentem atrasos motores e hipoatividade, intervenções direcionadas podem transformar esse quadro. Modalidades como natação, mini‑basquete, equoterapia, artes marciais e exergames mostraram eficácia na redução de déficits motores e no estímulo à comunicação social.

Além disso, notamos que a modulação de comportamentos estereotipados e da autorregulação emocional depende de fatores como adequação sensorial, mediação social e dose apropriada do programa. Quando essas variáveis são respeitadas, ocorrem ganhos mensuráveis na coordenação motora, na autorregulação e nas funções executivas. A Educação Física estruturada ainda contribui para o desenvolvimento de atenção, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, pois as atividades esportivas envolvem regras, alternância de turnos e interação social.

Importante destacar que, além de melhorias motoras, alguns estudos mostraram alterações em neuroimagem. Um programa de mini‑basquetebol provocou melhorias na comunicação social e mudanças na conectividade funcional cerebral observadas por ressonância magnética funcional. Esses resultados sugerem que a atividade física tem potencial para promover plasticidade neural em crianças com autismo.

3. O artigo da revista Research, Society and Development de 2024 aborda benefícios específicos da atividade física para crianças com TEA. Como esses achados dialogam com a sua revisão?

Michele Lafraia: O estudo de Cruz de Jesus e colaboradores (2024), publicado na Research, Society and Development, complementa a nossa revisão ao focar em intervenções recentes (últimos cinco anos) e em crianças. Eles analisaram quatro estudos que atendiam aos critérios de qualidade e observaram que a prática regular de atividade física traz múltiplos benefícios: melhora das habilidades motoras, redução da ansiedade e melhor qualidade do sono.

Outro ponto interessante é que não se limitam a modalidades tradicionais. Os autores destacam que programas estruturados, incluindo exergames, foram eficazes no desenvolvimento de habilidades motoras e funções executivas. Além disso, mostram que intervenções mediadas pelos pais são benéficas e que o envolvimento familiar é crucial. Concluem que a atividade física é uma intervenção de baixo risco, mas exigem planejamento adequado e suporte profissional para maximizar seus efeitos. Essas conclusões conversam diretamente com a nossa proposta de uma Educação Física escolar estruturada e com o papel das famílias como parceiras no processo de inclusão.

4. A revisão da Revista Brasileira de Educação Especial (SciELO) avaliou programas de intervenção em atividade física para pessoas com TEA. O que essa revisão nos ensina?

Michele Lafraia: Essa revisão, publicada em 2015, reuniu 18 estudos com 140 participantes com autismo e buscou entender o impacto de diferentes modalidades. As intervenções analisadas incluíram jogos, natação, corrida, caminhadas terapêuticas, hidroginástica e exercícios recreativos. Os autores observaram melhorias significativas em comportamentos agressivos e estereotipados, no funcionamento social, na qualidade de vida, na resistência física e na redução do estresse.

A revisão chama atenção para o fato de que os déficits motores são um núcleo característico do autismo e que o tratamento deve incluir intervenções voltadas à coordenação motora, equilíbrio e planejamento de movimentos. Além disso, reforça a necessidade de mais estudos com grupos maiores e metodologias padronizadas, pois muitos trabalhos utilizam amostras pequenas e variam bastante nos protocolos. Essa heterogeneidade foi destacada no nosso artigo, quando mostramos que as revisões sistemáticas e meta‑análises apontam resultados positivos, mas ainda carecem de ensaios clínicos robustos.

5. Quais barreiras ainda dificultam a participação de crianças autistas em atividades físicas?

Michele Lafraia: As barreiras são multidimensionais e envolvem fatores ambientais, sociais e pessoais. Um estudo realizado em Pelotas (RS) e divulgado pelo Centro Esportivo Virtual descreveu as principais barreiras relatadas por pais de crianças com autismo: 97,3 % apontaram a ausência de projetos sociais que inserissem as crianças em programas de atividade física; 65,8 % mencionaram a falta de recomendação por parte dos professores de Educação Física; 57,5 % citaram a falta de companhia de amigos; 57,2 % indicaram que as crianças preferiam outras atividades; e 56,2 % disseram que o custo das atividades era um impeditivo. O estudo conclui que é necessário criar políticas que facilitem o acesso às práticas físicas e investir na promoção de saúde e atividade física para essa população.

Nosso artigo também menciona outras barreiras, como ambientes escolares com baixa previsibilidade, estímulos sensoriais desregulados e dependência de instruções verbais, que impedem a participação de alunos com TEA. A ansiedade decorrente da imprevisibilidade e da sobrecarga sensorial é outra barreira importante. Para superar esses obstáculos, precisamos de projetos sociais gratuitos, formação continuada para professores, adaptação ambiental e apoio às famílias para que possam envolver seus filhos em atividades físicas.

6. Que estratégias pedagógicas você recomenda para professores de Educação Física que atendem alunos com TEA?

Michele Lafraia: As estratégias devem combinar organização estruturada, sensibilidade às necessidades sensoriais e foco nas habilidades sociais. Algumas recomendações baseadas em evidências:

  1. Planejamento e adaptação curricular: Utilizar roteiros visuais, regras claras e rotinas previsíveis. A literatura aponta que intervenções bem estruturadas, com regras e alternância de turnos, favorecem a atenção, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva.
  2. Diversidade de modalidades: Explorar natação, equoterapia, mini‑basquete, artes marciais e exergames, pois essas atividades mostram eficácia na mitigação de déficits motores e na facilitação da comunicação social.
  3. Ambiente sensorialmente adequado: Reduzir estímulos auditivos e visuais excessivos e oferecer espaços seguros. A modulação de comportamentos estereotipados depende da adequação sensorial.
  4. Grupos pequenos e pares modelos: Incluir colegas com desenvolvimento típico em atividades mediadas; a literatura indica que o sucesso das intervenções está associado à presença de pares e de profissionais qualificados.
  5. Avaliação contínua: Monitorar progresso motor, social e comportamental utilizando instrumentos padronizados para ajustar o programa.

O objetivo é transformar a Educação Física escolar em um dispositivo de prevenção e inclusão, indo além da recreação.

7. Qual é o papel das famílias na promoção da atividade física para crianças com TEA?

Michele Lafraia: O envolvimento familiar é vital. O estudo da Research, Society and Development destaca que intervenções mediadas pelos pais – em que os pais participam ativamente na prática ou gerenciamento das atividades – são benéficas e reforçam a importância do apoio familiar. Muitas crianças se engajam mais quando os pais praticam atividades com elas ou estabelecem rotinas de exercícios em casa. Exergames podem ser usados em família para estimular a interação e a atividade física.

As famílias também atuam na defesa de direitos. Podem buscar programas comunitários, exigir adaptações escolares e participar de grupos de apoio. No entanto, muitas relatam dificuldades financeiras ou logísticas, por isso políticas públicas e programas gratuitos são essenciais para reduzir o custo e ampliar a participação.

8. O que ainda falta investigar e quais são as perspectivas para o futuro?

Michele Lafraia: Apesar dos avanços, ainda há lacunas importantes. A revisão de 2015 e as meta‑análises recentes apontam heterogeneidade nas modalidades e protocolos, bem como amostras pequenas. Precisamos de ensaios clínicos randomizados com maior número de participantes, duração mais longa e descrição detalhada das intervenções para identificar qual modalidade, intensidade e duração são mais eficazes.

Também carecemos de estudos que considerem idade, sexo e nível de suporte necessário. A maior parte das pesquisas envolve meninos em idade escolar; há lacunas em pré‑escolares e em meninas. Pesquisas futuras devem incluir tecnologia digital (como exergames de realidade virtual), investigar efeitos a longo prazo e avaliar impactos em domínios acadêmicos.

Na prática, é fundamental articular universidades, escolas e serviços de saúde para implementar projetos contínuos. A educação física inclusiva deve ser apoiada por formação docente, políticas públicas e programas comunitários, visando garantir que toda criança autista tenha acesso aos inúmeros benefícios da atividade física.

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