A disparidade no atendimento de saúde entre os grandes centros urbanos e as comunidades do interior do Brasil permanece alarmante. Pequenas cidades e zonas rurais enfrentam escassez de médicos. Em mais de um terço dos municípios (1.915 cidades), não há qualquer atendimento médico privado, o que significa que 15,7 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do SUS para cuidados de saúde.
Desigualdade na distribuição de médicos
Dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) evidenciam a concentração de profissionais nos centros urbanos em detrimento do interior. Atualmente, 52% dos médicos atuam nas capitais, onde vive apenas 23% da população, enquanto 77% residem no interior mas contam com apenas 48% dos médicos. Em média, as capitais têm 7,03 médicos por mil habitantes, ao passo que nos municípios interioranos a proporção é de apenas 1,89. Em regiões remotas como o interior do Amazonas, há apenas 0,2 médico por mil habitantes, ou seja, um profissional para 5 mil pessoas.
Essa distribuição desigual deixa vastas áreas rurais sem assistência adequada. Um estudo da Fiocruz constatou alta rotatividade e déficit de médicos dispostos a atuar em municípios rurais remotos. De acordo com a Confederação Nacional de Municípios (CNM), 29% dos municípios brasileiros relataram falta de médicos na Atenção Básica em 2023, prejudicando a população no Norte e Nordeste.
Impactos e desafios nas comunidades rurais
Moradores do interior muitas vezes viajam horas em busca de atendimento médico, o que atrasa diagnósticos e agrava doenças tratáveis. “Quando falamos em acesso, não abordamos apenas a questão econômica, mas a geográfica também. Oferecer saúde de qualidade para toda a população, combatendo as iniquidades, é obrigação do SUS. É ele que chega onde a iniciativa privada nem sempre tem interesse”, destaca Nésio Fernandes, secretário de Atenção Primária do Ministério da Saúde.
Especialistas apontam que a fixação de profissionais no interior depende de condições estruturais. “Tem que ter laboratório, leitos de internação, condições de trabalho e de vida”, afirma o presidente do CFM, José Hiran Gallo. Ele ressalta que não adianta oferecer apenas um salário alto se faltam estrutura e qualidade de vida para o médico e sua família no interior. Sem esses atrativos, mesmo estados que formam médicos veem muitos recém-formados migrarem para centros maiores. A ausência de um médico deixa a comunidade vulnerável em emergências; enfermeiros e agentes de saúde fazem o possível, mas não suprem a falta de atendimento especializado.
Possíveis caminhos para melhoria
O enfrentamento desse desafio passa por investimentos em saúde rural e incentivos para médicos atuarem fora dos grandes centros. Programas governamentais como o Mais Médicos foram retomados para levar profissionais a áreas vulneráveis. Hoje, o programa alcança cerca de 80% dos municípios de pequeno porte, garantindo atendimento e beneficiando milhões de pessoas. Ainda assim, a fixação de médicos no campo continua um obstáculo, pois muitos deixam as vagas após curto período. Lideranças do CFM defendem planos de carreira e concursos públicos direcionados a regiões carentes.
A enfermeira e gestora hospitalar Gláucia Franco, com mais de 20 anos de experiência, propõe a criação de clínicas de emergência multidisciplinares com rodízio regional de médicos, que “podem ser uma solução viável e eficaz para atender a população rural”. Esse modelo permitiria que equipes de várias especialidades se revezassem no atendimento 24 horas, diminuindo as lacunas de assistência nas pequenas cidades.
As soluções exigem compromisso de longo prazo do poder público. É preciso garantir que viver longe dos centros urbanos não signifique ficar sem assistência, que os brasileiros do campo tenham acesso a atendimento médico.