Em meio ao boom de novos empreendimentos, pequenos empresários paulistas enfrentam obstáculos para investir em marketing e divulgar seus negócios. Nos últimos anos, o Brasil registrou recordes de abertura de empresas – 97% delas de micro, pequeno porte ou MEI – e São Paulo liderou as estatísticas, concentrando cerca de 29% dos novos pequenos negócios em 2025. Hoje existem 21,7 milhões de micro e pequenas empresas no país, responsáveis por 26,5% do PIB nacional. Esse crescimento reforça a importância do marketing para conquistar clientes em um mercado cada vez mais competitivo, mas orçamentos apertados e falta de planejamento impõem desafios diários aos empreendedores locais.
“Gerir uma empresa, mesmo pequena, é uma atividade complexa”, avalia Cleber Genero, vice-presidente de PMEs da Serasa Experian. Ele observa que muitos donos de negócio dominam seu produto ou serviço, mas têm lacunas em áreas como gestão financeira e estratégias de crescimento, o que pode se tornar um gargalo permanente. Uma pesquisa da Serasa Experian divulgada em setembro de 2025 reforça essa dificuldade: três em cada dez pequenas e médias empresas brasileiras apontam conquistar e reter clientes como seu maior desafio, seguida de perto pela divulgação eficiente do negócio (29%). Ou seja, atrair público e fazer marketing preocupa quase um terço dos empreendedores, principalmente no setor de serviços (onde 35% declararam essa dificuldade). “Muitos questionam ou defendem que não há como investir em marketing se faltam recursos até para o básico”, comenta um artigo especializado em pequenas empresas, notando o ceticismo de quem ainda vê ações de marketing como algo caro e restrito a grandes corporações.
Paradoxalmente, a digitalização se tornou legado positivo da pandemia e abriu oportunidades de marketing acessível para os pequenos negócios. Um levantamento do Sebrae publicado em fevereiro de 2025 revelou que quase metade (48%) dos donos de pequenos negócios do país já pagou por anúncios nas redes sociais ou em outros canais online. Entre as micro e pequenas empresas (MPE), 59% investem em divulgação online, embora entre os microempreendedores individuais (MEI) essa proporção seja menor, de 39%. O mesmo estudo aponta que cerca de 70% dos empreendimentos utilizam alguma ferramenta digital para vendas, com destaque absoluto para o WhatsApp (adotado por 81%), seguido do Instagram (60%), que recentemente ultrapassou o Facebook (34%) como canal preferido dos empreendedores. “Percebemos que o legado da pandemia é a digitalização das empresas. O Instagram aumentou sua participação no e-commerce nos últimos três anos, passando à frente do Facebook”, explica Kennyston Lago, analista de pesquisa do Sebrae. Lago ressalta o otimismo para os próximos anos: “As plataformas digitais são um vasto campo de oportunidades. O avanço da tecnologia, o aumento da confiança do consumidor nas compras on-line e o crescimento de soluções financeiras acessíveis impulsionarão ainda mais esse setor”. Em outras palavras, o marketing digital tende a ser cada vez mais decisivo para o crescimento dos pequenos negócios em 2026.

Apesar da adesão crescente às mídias sociais e ao e-commerce, investir em marketing de forma consistente ainda é um desafio financeiro. Muitos empreendedores individuais operam com margens reduzidas e acabam limitando a divulgação ao boca a boca, promoções pontuais ou postagens orgânicas gratuitas nas redes. “Não investir em marketing digital” aparece entre os erros comuns de negócios que tentam crescer sozinhos. Por outro lado, especialistas defendem que ações bem planejadas cabem no bolso das pequenas empresas. Segundo análise do portal Mundo do Marketing, o marketing digital permite segmentar o público e otimizar custos, de modo que uma PME consiga resultados mesmo com baixos orçamentos, investindo, por exemplo, R$10 por dia em campanhas bem direcionadas. Isso se reflete na estratégia de muitas empresas de São Paulo que migraram para plataformas online: o marketing digital oferece o maior Retorno sobre Investimento (ROI) com menores custos operacionais para negócios de verba limitada. Ferramentas como anúncios segmentados, presença ativa em redes sociais e uso do Google Meu Negócio ajudam o pequeno empreendedor a ganhar visibilidade local sem grandes gastos, substituindo em parte a dependência de mídias tradicionais.
Acostumadas a competir com gigantes, micro e pequenas empresas têm buscado estratégias criativas para aparecer no mercado. A popularização de novas tecnologias também começa a beneficiar esses negócios: um estudo global do LinkedIn mostrou que 43% dos profissionais de PMEs no Brasil já utilizam inteligência artificial para tarefas como análise de dados e criação de conteúdo. Entretanto, os especialistas alertam que tecnologia sozinha não é garantia de sucesso. “A inteligência artificial está redefinindo a forma como as PMEs operam, mas tecnologia sozinha não sustenta crescimento. Confiança, reputação e conexões humanas continuam sendo os pilares que transformam inovação em resultado de longo prazo”, destaca Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn na América Latina. Esse foco na credibilidade da marca e no relacionamento com o cliente é compartilhado por consultores do Sebrae-SP: “O equilíbrio entre automação e humanização será essencial para garantir conexões genuínas. Apesar do crescimento do uso da IA, as pessoas continuarão a pedir por conexões humanas”, observou Silmara Regina de Souza, consultora de negócios, em reportagem sobre tendências de consumo. Em síntese, aliar ferramentas digitais à autenticidade no atendimento virou a receita para pequenas empresas se destacarem sem gastar fortunas.
Diante desse cenário, como então o pequeno empresário pode investir em marketing com poucos recursos? Erick Renato Rufino Hernandes, especialista em marketing para pequenos negócios, afirma que a chave está em planejamento e criatividade. “Mesmo com orçamento apertado, dá para fazer marketing de qualidade”, orienta Hernandes. Ele sugere aproveitar ferramentas gratuitas e estratégias de baixo custo: “Usar as redes sociais de forma consistente, criar conteúdo relevante para o seu público, incentivar indicações de clientes satisfeitos e firmar parcerias locais são caminhos acessíveis para ganhar visibilidade sem gastar muito”. Segundo o consultor, o importante é focar no relacionamento com o cliente e na presença onde ele está. “Com criatividade e foco na experiência do consumidor, é possível obter resultados significativos investindo pouco – o marketing não precisa ser caro para funcionar”, destaca. Essas orientações se somam a iniciativas de capacitação: entidades como o Sebrae intensificaram cursos e consultorias em marketing digital voltados a microempresas, justamente para ensinar estratégias eficazes de divulgação a baixo custo[21].
No maior centro econômico do país, os empreendedores de São Paulo sentem na prática a urgência de investir em marketing para sobreviver e crescer. Em um comércio cada vez mais digital e disputado, ficar invisível deixou de ser opção. Especialistas alertam que, em 2026, a ausência de uma estrutura sólida de marketing – sobretudo nos canais online – não representa apenas vendas perdidas, mas um risco de obsolescência do negócio frente a um mercado majoritariamente conectado. Por isso, mesmo os pequenos precisam encontrar maneiras de aparecer. Se por um lado falta dinheiro, por outro sobram alternativas criativas: do post no Instagram ao grupo de bairro no WhatsApp, da parceria com o influenciador local ao velho cartaz de promoção na vitrine, vale quase tudo para tirar a empresa da invisibilidade. A meta é clara: transformar desafios em oportunidades, mantendo acesa a vocação empreendedora que hoje impulsiona milhões de pequenos negócios no Brasil.