No Brasil, muitas crianças e adolescentes crescem cercados por violência, pobreza e ausência de perspectivas. Em bairros periféricos, a escola disputa espaço com o tráfico, a rua substitui a família e a ideia de futuro parece um luxo distante. A rede de proteção, muitas vezes, chega apenas quando a evasão escolar, a violência doméstica ou o crime já se instalaram.
A assistente social Kátia Gomes Araújo, de Juiz de Fora (MG), construiu sua trajetória como resposta concreta a esse cenário. Em vez de atuar só na crise, ela escolheu o caminho da prevenção estruturada: agir cedo, acompanhar de perto e criar alternativas reais para que a violação de direitos não aconteça.
Em 2022, essa visão ganhou forma no Projeto Saúde e Bem-Estar, idealizado por Kátia para crianças e adolescentes de comunidades vulneráveis. A iniciativa, implantada em território de alta vulnerabilidade social, disputa o tempo e o olhar desses jovens com atividades esportivas, ações comunitárias e espaços de convivência segura. Cada criança é conhecida pelo nome; a prática esportiva fortalece disciplina, respeito e cooperação; rodas de conversa ajudam a identificar sinais precoces de sofrimento, violência ou problemas na escola.
Na prática, o projeto funciona como um anteparo: cria vínculos, fortalece redes e mostra que há pessoas e lugares dispostos a cuidar antes que a situação chegue ao extremo. Em vez de ações isoladas, a aposta é em continuidade, presença e vínculo.
Desde 2018, Kátia também atua na ONG Seguidores do Bem, onde convive com histórias de fome, abandono escolar, violência e desemprego. Essa experiência consolidou uma convicção: não existem “casos isolados”, e sim um padrão de desigualdades que se repete de geração em geração. Por isso, seus projetos são pensados para durar, acompanhar famílias e construir, pouco a pouco, novas possibilidades de futuro.
O trabalho no território se soma à incidência em políticas públicas. Em 2015, Kátia participou, como gestora, da VII Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, em Juiz de Fora, contribuindo para o Plano Decenal dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes. Levou para esse espaço a perspectiva de quem conhece o cotidiano das periferias e defendeu políticas voltadas à prevenção, ao fortalecimento dos vínculos familiares e à atuação integrada entre assistência social, educação, saúde e sistema de garantia de direitos.
O fio que costura sua trajetória é uma lógica clara de solução: agir antes, fortalecer sempre. Em termos técnicos, sua atuação se alinha aos pilares do Sistema de Garantia de Direitos, com foco em prevenção primária, fortalecimento de vínculos, articulação da rede socioassistencial e participação em conferências e conselhos. Em um país em que o futuro de milhares de crianças e adolescentes ainda está em jogo, a história de Kátia Gomes Araújo mostra que enfrentar o problema passa, inevitavelmente, por investimento em prevenção, redes de apoio sólidas e políticas públicas conectadas à realidade dos territórios.
(*) Kátia Gomes Araújo é assistente social e liderança comunitária com mais de uma década de atuação em proteção social. Fundadora do Projeto Saúde e Bem-Estar e com passagem pela ONG Seguidores do Bem, ela é referência em inclusão de pessoas com deficiência, defesa dos direitos da infância e articulação de políticas públicas em Minas Gerais.