Entre cuidado e segurança: os bastidores da gestão em unidades que atendem adolescentes sob proteção do Estado



A experiência de Priscilla Piretti revela como protocolos, equipes preparadas e decisões técnicas impactam diretamente a proteção de direitos

Poucas áreas da gestão pública exigem tanto equilíbrio quanto a administração de unidades voltadas ao atendimento de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas. Nesses espaços, o Estado lida, ao mesmo tempo, com proteção de direitos, responsabilização, segurança institucional, atendimento técnico, convivência coletiva e prevenção de crises.

A complexidade é evidente: qualquer falha de rotina, comunicação, infraestrutura ou procedimento pode comprometer a segurança de adolescentes, servidores e equipes técnicas. Por isso, a atuação nesse campo exige mais do que conhecimento jurídico ou experiência administrativa. Exige método, presença institucional e capacidade de transformar normas em práticas diárias.

A advogada e gestora pública Priscilla Piretti construiu parte importante de sua trajetória nesse ambiente. Com experiência na estrutura do Estado de Goiás e atuação vinculada ao sistema socioeducativo, ela defende que a proteção de direitos depende de uma gestão capaz de unir legalidade, rotina operacional e responsabilidade humana.

“Quando se fala em adolescente sob responsabilidade do Estado, cada decisão administrativa tem impacto direto. Não existe procedimento neutro. A forma como a unidade organiza a rotina, registra ocorrências, conduz deslocamentos, recebe visitantes ou responde a uma crise interfere na proteção de direitos”, afirma.

O cotidiano como ponto central da política pública

Em muitos debates, a política socioeducativa aparece apenas a partir de leis, diretrizes e princípios. Mas é no cotidiano das unidades que essa política se confirma ou fracassa. Acordar, deslocar, alimentar, atender, acompanhar, registrar, revistar, comunicar e monitorar são ações aparentemente simples, mas que formam a base concreta da proteção institucional.

O Manual de Procedimentos das Ações de Segurança do Sistema Socioeducativo do Estado de Goiás, documento institucional de 2015, trata justamente dessa dimensão operacional: rotinas, deslocamentos internos, registro de ocorrências, acompanhamento de adolescentes, revistas, procedimentos para visitantes, controle de materiais e resposta a situações de crise.

Para Priscilla, esse tipo de padronização não serve para engessar o trabalho, mas para reduzir improvisos em ambientes de alta sensibilidade.

“O protocolo não substitui a análise humana, mas orienta a atuação. Ele dá segurança para a equipe, cria previsibilidade e ajuda a impedir que decisões graves sejam tomadas apenas no impulso ou na pressão do momento”, explica.

Segurança institucional não é sinônimo de repressão

Um dos maiores desafios da gestão socioeducativa é evitar leituras simplistas. Segurança, nesse contexto, não pode ser confundida com endurecimento indiscriminado. Ao mesmo tempo, a ausência de controle e organização pode expor adolescentes e servidores a riscos reais.

A gestão precisa operar em uma zona de equilíbrio: garantir direitos, preservar a integridade física e emocional dos envolvidos, manter a ordem institucional e assegurar que as atividades pedagógicas, técnicas e familiares possam ocorrer com estabilidade.

“Sem segurança institucional, a política de atendimento também fica comprometida. O ponto é compreender a segurança como condição para o cuidado, e não como negação dele”, pontua Priscilla.

Essa visão aparece de forma prática em rotinas como controle de acesso, comunicação entre setores, acompanhamento de deslocamentos, conferência de materiais e registro de alterações no plantão. São medidas que podem parecer administrativas, mas funcionam como mecanismos de prevenção.

Equipes preparadas fazem diferença

A gestão de unidades socioeducativas também depende da integração entre diferentes áreas. Servidores da segurança, profissionais da assistência social, saúde, educação, psicologia, administração e direção precisam atuar com clareza sobre seus papéis.

Quando essa integração falha, o atendimento se fragmenta. Uma informação que não chega ao setor correto, um registro incompleto ou uma decisão tomada sem consulta técnica pode gerar consequências graves.

Priscilla observa que a liderança, nesse contexto, precisa organizar fluxos e sustentar a equipe em momentos de pressão.

“Unidades sensíveis exigem equipes que saibam o que fazer, a quem comunicar e como agir diante de situações ordinárias e extraordinárias. A liderança precisa garantir unidade de ação, sem apagar a responsabilidade técnica de cada área”, afirma.

Crise, registro e responsabilidade

Em ambientes socioeducativos, a gestão de crise é um tema inevitável. Motins, tentativas de fuga, conflitos entre adolescentes, ameaças, problemas estruturais e situações de risco exigem respostas rápidas, mas não improvisadas.

O desafio está em agir com proporcionalidade e fundamento. Toda intervenção precisa observar legalidade, necessidade, registro e preservação da integridade das pessoas envolvidas. O uso da força, quando excepcionalmente necessário, deve ser tratado como medida de último recurso, sempre submetida a critérios objetivos.

Para Priscilla, o registro é uma das ferramentas mais importantes da Administração Pública.

“O que não é registrado se perde. E, em áreas sensíveis, a ausência de registro fragiliza a equipe, a instituição e o próprio direito do adolescente atendido. A documentação técnica cria memória institucional e permite controle, correção e responsabilização”, destaca.

Gestão

A sociedade costuma enxergar a política pública pelos seus resultados finais. Mas, antes do resultado, existe uma engrenagem de gestão: escala de servidores, manutenção predial, contratos de alimentação, transporte, prontuários, relatórios, comunicação institucional, formação de equipe e articulação com Judiciário, Ministério Público, Defensoria e rede de proteção.

No sistema socioeducativo, essa engrenagem não é acessória. Ela é a condição para que a proteção aconteça.

“Administrar uma estrutura sensível é compreender que o direito não se realiza apenas no discurso. Ele depende de rotina, equipe, estrutura, registro e decisão responsável. Quando esses elementos funcionam, o Estado consegue proteger melhor. Quando falham, quem sofre primeiro é a pessoa que deveria ser atendida”, conclui Priscilla Piretti.

Total
0
Shares
Deixe um comentário
Próximo Artigo
Mercado de previsão avança no Brasil e OpinaKi lança plataforma

Mercado de previsões avança no Brasil e novo modelo une rede social à inteligência coletiva

Artigo Anterior

O Vácuo entre a Sentença e a Sala de Aula: Onde o Direito de Família encontra a Realidade Escolar

Relacionados