Estudo aponta dependência afetiva, solidão e baixa autoestima como fatores de vulnerabilidade em relações violentas
A cena se repete em clínicas psicanalíticas, delegacias e grupos de apoio. A mulher reconhece o abuso, entende o risco, planeja a saída e não consegue ir. Não por falta de informação, não por falta de força, não por falta de amor-próprio no sentido em que o senso comum usa a expressão. Ela não consegue porque há algo que a prende por dentro.
Segundo pesquisa da Freud Academy, 25% das mulheres apontam a dependência emocional como fator central de permanência em relações abusivas. O índice aparece ao lado de outros igualmente expressivos. 30% citam a solidão, 24% a dependência do parceiro e 18% a baixa autoestima. Os números não são isolados. Eles se articulam e desenham um quadro em que a violência não se sustenta apenas pela coerção externa, mas por uma trama psíquica que se instala por dentro.
A dependência que não é fraqueza
Para a psicanálise, o termo “dependência emocional” exige cuidado. Ele não descreve um defeito de caráter, uma imaturidade ou uma escolha equivocada. Descreve uma estrutura.
De acordo com o psicanalista Felipe Chaves, coordenador regional da American Society of Freudian Psychoanalysis da Freud Academy para o Brasil, “a dependência emocional não é falta de força, é uma solução que o sujeito encontrou para não enfrentar o vazio. Quando o ambiente original não oferece segurança, o outro deixa de ser parceiro e passa a ser condição de sobrevivência psíquica. É uma estratégia de autoanulação, na qual o sujeito abandona o próprio desejo para preservar o vínculo que julga vital”.
Nessa configuração, o parceiro deixa de ser alguém com quem se compartilha a vida e passa a ocupar a função de sustentar a identidade do outro. A relação deixa de ser encontro e se torna necessidade. E é exatamente aí que a violência encontra terreno.
“Quando o outro é a condição da sua existência, você aceita tudo, porque perdê-lo equivale, no plano psíquico, a desaparecer. A mulher vai se anulando como sujeito desejante, apagando a própria voz, até se tornar extensão do outro. O agressor não cria a dependência, ele a encontra e a explora”, avalia Felipe Chaves.
Solidão, baixa autoestima e o ciclo que se fecha
Os dados mostram que a dependência raramente caminha sozinha. 30% das mulheres citam a solidão como fator de vulnerabilidade, não a ausência física de pessoas, mas a ausência de vínculos que sustentem. 18% mencionam a baixa autoestima, que na leitura psicanalítica não é uma avaliação negativa de si, mas o resultado de uma história em que o sujeito não encontrou reconhecimento.
“A baixa autoestima não é uma opinião que a mulher tem sobre si mesma, é o efeito de uma história em que o reconhecimento não foi possível. Ela constrói uma imagem idealizada para compensar essa falta, mas a imagem é frágil porque não se sustenta por dentro. Por isso escolhe quem a faz sentir que existe, mesmo que esse alguém a machuque. A dor do reconhecimento negativo é preferível ao vazio do não-reconhecimento”, afirma o psicanalista.
O ciclo se fecha de maneira perversa. Quanto mais a mulher depende do parceiro para existir, mais ela se afasta de outras fontes de sustentação, como amigos, família, trabalho e desejo próprio. Quanto mais isolada, mais dependente. Quanto mais dependente, mais vulnerável à violência.
A saída não é o outro
A pergunta que se coloca, então, é o que rompe esse ciclo. A resposta que a psicanálise oferece não é confortável nem rápida.
Segundo o coordenador da Freud Academy no Brasil, “a saída não é encontrar um parceiro melhor, isso é repetir a mesma estrutura com outro nome. A saída passa por elaborar essa falta que o sujeito tentou tapar com o outro, suportar o vazio sem preenchê-lo imediatamente e reencontrar o desejo próprio que ficou soterrado pela autoanulação. A cura não é encontrar o amor perfeito, é tornar-se capaz de existir sem ele”.
Felipe Chaves destaca ainda que a rede de apoio cumpre uma função que não substitui a análise, mas a torna possível.
“Nenhuma mulher sai de uma relação abusiva sozinha. Ela sai quando encontra alguém que a escuta sem dizer o que ela deveria fazer. A função do analista não é empurrar a saída, mas sustentar um espaço onde ela possa testar quem é sem o outro, sem que isso signifique desaparecer. A decisão é dela, mas ela só consegue decidir quando volta a se sentir alguém com desejo próprio”, analisa o psicanalista.
O que a pesquisa ilumina
A pesquisa que originou os dados desta reportagem foi conduzida pela escola de psicanálise Freud Academy, instituição dedicada ao estudo da psique, do comportamento humano e à formação de psicanalistas dentro da tradição clássica. O levantamento integra uma linha de investigação que a instituição mantém sobre os fatores psíquicos que atravessam a violência doméstica, com atenção especial aos mecanismos inconscientes que dificultam a ruptura de vínculos abusivos.
Os 25% que aparecem no levantamento não são um número abstrato. São mulheres que, em algum momento, aprenderam que existir dependia de alguém. A psicanálise não promete atalhos, mas sustenta que essa aprendizagem pode ser desfeita.