Psicopedagoga, autora e pesquisadora em Foz do Iguaçu (PR), Mariane defende que brincar e aprender são indissociáveis e que cabe ao professor planejar esse encontro com intencionalidade, critérios claros e avaliação formativa.
No Paraná, ela tem se destacado por integrar evidências nas práticas escolares. Em seus estudos recentes, afirma que brincar e aprender são inseparáveis na Educação Infantil e que os brinquedos, jogos e brincadeiras — sejam espontâneos ou planejados — devem estar alinhados a metas educativas definidas, desde o berçário até o último ano da Educação Infantil. Quando isso ocorre, o lúdico deixa de ser um “intervalo” e se transforma em conteúdo e método, ou seja, uma parte fundamental do currículo e do planejamento.
A pesquisa tem uma estrutura de revisão bibliográfica e parte de uma pergunta clara: qual a relevância do lúdico para o desenvolvimento global de crianças de 0 a 5 anos? A resposta, sustentada por referenciais da área, revela que o brincar, quando devidamente mediado, potencializa aspectos emocionais, motores e intelectuais — fundamentais para a alfabetização e os anos subsequentes. Não é “tempo perdido”, mas sim um momento em que a criança testa hipóteses, cria símbolos e internaliza normas de convivência, expandindo seu repertório de linguagem e de interação social.
Um ponto central do trabalho é a figura do professor como “arquiteto do contexto”. Compreender as fases do desenvolvimento e as características físicas e emocionais guia dois movimentos essenciais: a seleção cuidadosa de brincadeiras e materiais e a organização do ambiente em diferentes áreas e propostas. Essas decisões transformam a qualidade da experiência: planejar não é restringir, é dar uma direção pedagógica para que o desenvolvimento infantil tenha uma intenção. A mediação eficaz inclui observação com um roteiro e documentação em portfólios, produzindo evidências do percurso que fundamentam avaliação formativa e feedbacks claros às famílias.
Gestores e redes de ensino
O estudo também se conecta com gestores e redes de ensino. A Educação Infantil é a primeira fase da educação brasileira e, por isso, requer financiamento, planejamento e acompanhamento constantes para que brincar e aprender não sejam iniciativas isoladas. Ao reconhecer o lúdico como direito da criança e compromisso pedagógico, Mariane destaca a necessidade de políticas que assegurem formação contínua de docentes, materiais adequados e tempo para planejamento — em vez de depender de “projetos” pontuais.
Na prática, o que muda ao adotar essa perspectiva na escola? Primeiro, a equipe identifica sinais de desenvolvimento usando ferramentas validadas e observação orientada em sala. Em seguida, propõe brincadeiras e projetos que estejam em coerência com os objetivos traçados para a turma e para cada criança. O ajuste fino é o nível de desafio: deve ser adequado para não frustrar nem desmotivar. Por fim, registra-se a evolução em portfólios, incluindo fotos, relatos e produções, e compartilham-se feedbacks compreensíveis com as famílias. Esse ciclo minimiza improvisos, aumenta o engajamento e torna a aprendizagem visível — não apenas nas notas, mas nas interações, na linguagem e na autonomia do dia a dia. É ciência com afeto, metodologia com propósito.
A experiência de Mariane demonstra que o lúdico planejado enriquece o tempo e espaço escolar. Ao tratar o brincar como conteúdo, o professor cria situações-problema, histórias, jogos simbólicos, investigações com materiais e desafios motores que se relacionam com os objetivos de aprendizagem. Ao concebê-lo como método, estrutura rotinas e critérios para observar a participação, a iniciativa, a linguagem e a cooperação. Não se trata de “encher a sala de brinquedos”, mas de selecionar materiais que façam sentido para a faixa etária, propor desafios significativos e avaliar com critérios simples, traduzindo o brincar em evidências de desenvolvimento.
Para as famílias, a mensagem também é clara: brincar não é contrário a aprender — é a forma como a criança aprende. Ao levar a brincadeira e o faz-de-conta a sério, a escola convida os responsáveis a acompanhar os portfólios e feedbacks, compreendendo que cada momento lúdico possui um propósito e uma razão. Aos gestores, fica a tarefa: garantir tempo para planejamento, formação contínua, ambiente adequado e documentação pedagógica sistemática. Esse conjunto fortalece a comunicação com a comunidade e proporciona previsibilidade às práticas, evitando oscilações entre “modismos” e improvisos.
No final, fica uma imagem simples: uma sala organizada em cantos de experiências, materiais acessíveis às mãos pequenas, professores observando intencionalmente e registrando descobertas. Quando o lúdico é o centro do projeto pedagógico, a escola consegue ver com clareza a criança que investiga, cria, narra, estabelece regras e dá sentido — e é essa criança que estará preparada para os desafios futuros. “Brincar e aprender caminham juntos: quando a escola planeja o lúdico, a criança se desenvolve integralmente”, resume Mariane.
Referência editorial: Brandão, M. (2025). A importância do lúdico para o desenvolvimento integral da criança matriculada na Educação Infantil. DOI: 10.69849/revistaft/ch10202503300909 .