Com base em dados da OMS e em sua experiência prática, a nutricionista brasileira destaca como a educação alimentar pode ser uma das principais ferramentas de prevenção e promoção de saúde para a população idosa
A humanidade está vivendo mais e isso traz implicações profundas para a saúde pública, já que de acordo com a Organização Mundial da Saúde até 2030 uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais, número que saltará de 1 bilhão em 2020 para 1,4 bilhão, e até 2050 esse contingente deve dobrar, chegando a 2,1 bilhões de pessoas, enquanto os idosos com mais de 80 anos devem triplicar, alcançando 426 milhões.
Embora esse envelhecimento populacional tenha começado em países ricos como o Japão, hoje a maior mudança acontece justamente em países de baixa e média renda, onde os sistemas de saúde ainda enfrentam desigualdades de acesso.
Para a nutricionista Ariane Alves, que direcionou sua carreira para a nutrição geriátrica, esses números traduzem não apenas um desafio, mas também uma oportunidade. “Envelhecer é um privilégio, mas precisamos pensar em como viveremos esses anos a mais, e se houver prevenção e consciência alimentar desde cedo conseguimos transformar a forma como as pessoas chegam à maturidade, com mais saúde e autonomia”, afirma.
Educação alimentar como prevenção de doenças crônicas
O envelhecimento é um processo natural, mas nem sempre linear, já que há pessoas que chegam aos 80 anos com vitalidade comparável à de adultos jovens, enquanto outras enfrentam limitações significativas já aos 50, e essa diferença não está apenas na genética, mas principalmente nos hábitos e ambientes ao longo da vida. Entre os fatores mais decisivos está a alimentação, que desempenha papel central na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por grande parte da mortalidade global.
Segundo a OMS, condições como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, demência e depressão estão entre os problemas mais comuns da terceira idade, assim como fragilidade, quedas e osteoartrite, e é nesse ponto que a nutrição consciente atua diretamente, já que uma dieta balanceada pode controlar níveis glicêmicos, reduzir inflamações, fortalecer ossos e músculos e ainda preservar a saúde cognitiva. “Muitas vezes, o que falta não é a vontade de se cuidar, mas sim a informação clara e prática, e quando mostramos que pequenas escolhas no prato fazem diferença o idoso se sente respeitado e capaz de cuidar de si”, explica Ariane.

Consciência alimentar e impacto social
O conceito de consciência alimentar vai além da escolha individual, pois envolve compreender a relação entre saúde, autonomia e dignidade, e para Ariane, que atua com grupos de idosos em igrejas e comunidades de baixa renda, o acesso à informação é um divisor de águas. Em contextos onde o acompanhamento nutricional é limitado, sua proposta é traduzir o conhecimento científico em orientações acessíveis, adaptadas à realidade de cada pessoa.
“Quando falo em prevenção não estou falando de dietas restritivas ou fórmulas prontas, mas de escolhas possíveis dentro da realidade de cada um, porque mesmo com recursos simples é possível organizar refeições mais equilibradas e reduzir riscos de doenças”, afirma a nutricionista, destacando que essa prática conecta a nutrição ao campo social e amplia seu alcance para além do consultório, transformando-a em ferramenta de redução de desigualdades.
Uma agenda global para o envelhecimento saudável
Essa visão dialoga diretamente com a agenda internacional, já que a ONU declarou 2021–2030 como a Década do Envelhecimento Saudável, sob liderança da OMS, mobilizando governos e profissionais em quatro frentes: combater o preconceito contra a idade, desenvolver comunidades inclusivas, oferecer cuidados de saúde adequados e garantir acesso a cuidados de longo prazo. No centro dessa estratégia está a promoção de ambientes que favoreçam escolhas saudáveis e incentivem a autonomia do idoso.
Se antes os idosos eram vistos como frágeis ou dependentes, hoje há um esforço global para reconhecer seu papel ativo na sociedade, mas para que possam continuar contribuindo com famílias e comunidades é fundamental investir em políticas públicas de prevenção, e nesse cenário a nutrição consciente surge como uma das ferramentas mais eficazes, pois influencia diretamente tanto a saúde física quanto o bem-estar emocional e social.

O futuro da longevidade
Para Ariane Alves, a resposta ao envelhecimento global não está apenas na medicina curativa, mas principalmente na prevenção contínua. “Quando um idoso entende que a prevenção está ao seu alcance, ele deixa de se sentir passivo diante do tempo, porque a consciência alimentar devolve autonomia e esperança, e é isso que busco transmitir em cada projeto”, resume.
À medida que a população mundial envelhece, a nutrição deixa de ser apenas uma escolha individual para se tornar política de saúde pública, e transformar informação em prática cotidiana, respeitando as particularidades de cada contexto, é o que pode garantir que os anos adicionais de vida sejam vividos com dignidade. Prevenção, consciência e autonomia não são apenas conceitos, mas sim os pilares que podem redefinir o envelhecimento no século XXI.
Texto criado por Andre Luis
Supervisão jornalística aprovada por Nathalia Pimenta